Todo supermercado com mais de 20 empregados por estabelecimento já é obrigado a manter controle de jornada — não pela Reforma Trabalhista de 2017, como muito material de fornecedor repete, mas pelo art. 74, §2º da CLT, na redação dada pela Lei 13.874/2019 (Lei da Liberdade Econômica). E o registro pode ser manual, mecânico ou eletrônico: o caput do mesmo artigo faculta os três. Ter ponto eletrônico não é exigência legal — é escolha operacional.

Isso muda a pergunta que importa. Não é "meu supermercado tem controle de ponto?". É: "esse controle sobrevive à instrução de uma reclamatória trabalhista?". A resposta está na Súmula 338 do TST, e o inciso III dela derruba a maioria dos sistemas vendidos hoje ao varejo alimentar — inclusive sistemas tecnicamente sofisticados, com reconhecimento facial, geolocalização e assinatura eletrônica.

O ponto eletrônico do mercado foi desenhado para o RH, não para a audiência

Reconhecimento facial, escalas 12x36 e 6x1, banco de horas, aplicativo no celular do colaborador — hoje isso é o piso de qualquer sistema de ponto eletrônico vendido no Brasil, não diferencial. Resolve o problema do RH: menos retrabalho na folha, menos ponto batido errado, menos ligação de colaborador perguntando quantas horas fez no banco de horas.

Nenhuma dessas features resolve o problema do dono quando o supermercado é citado numa reclamatória trabalhista. Nesse momento, o que importa não é a experiência do usuário no aplicativo. É se o arquivo que o advogado vai levar à audiência aguenta o exame de um perito contábil e a leitura de um juiz treinado para reconhecer um controle manipulado.

Súmula 338: as três regras que decidem o processo

A Súmula 338 do TST (Res. 129/2005, incorporando as OJs 234 e 306 da SBDI-1) tem três incisos, e os três interessam ao dono de supermercado:

Inciso I — é ônus do empregador com mais de 10 empregados registrar a jornada (número da redação original da súmula; a obrigação legal hoje aplica-se a estabelecimentos com mais de 20 empregados, como já visto acima). Não apresentar o controle sem justificativa gera presunção relativa de veracidade da jornada alegada pelo empregado — presunção que pode ser afastada por prova em contrário.

Inciso II — mesmo quando existe presunção de veracidade prevista em norma coletiva, ela pode ser elidida por prova em contrário.

Inciso III — cartões de ponto com horários de entrada e saída uniformes são inválidos como meio de prova, e isso inverte o ônus da prova contra o empregador. Se o controle for descartado, prevalece a jornada descrita na petição inicial do ex-funcionário.

É o inciso III que muda tudo. Um controle "limpo demais" — todo dia igual, sem as variações reais de uma loja com fila de caixa, reposição de mercadoria e troca de turno — não é prova de organização. É indício de manipulação, chamado na prática forense de ponto britânico. E o TST já aplicou essa tese em julgamento recente: a AIRR-0000895-33.2016.5.05.0002, julgada pela 5ª Turma (rel. min. Douglas Alencar, 24/06/2025), decidiu que variações mínimas e repetitivas nos cartões de ponto revelam manipulação, e que prevalece a jornada alegada pelo trabalhador quando isso ocorre.

Dois casos de supermercado que o TST já julgou

Não é teoria. O TST já decidiu, especificamente sobre supermercado, dois pontos que qualquer dono da faixa 100–400 colaboradores precisa entender antes de comprar ou renovar um sistema de ponto.

RR-1000786-69.2017.5.02.0351 (Supermercado Alta Rotação Ltda., Jandira/SP) — 3ª Turma, rel. min. Alberto Bresciani, julgado em 22/10/2020. O supermercado não apresentou os cartões de ponto de uma atendente e foi condenado a pagar horas extras. A tese fixada: a não apresentação injustificada de parte dos controles já é suficiente para gerar a presunção do inciso I da Súmula 338. Não precisa faltar tudo — falhar em entregar um período já expõe a empresa.

RR-949-31.2015.5.05.0035 (Bompreço Bahia Supermercados) — 1ª Turma, julgado em 17/10/2018. O caso tratava de cartão eletrônico sem assinatura do empregado. O TRT-5 havia invalidado os cartões por falta de assinatura, exigindo que a empresa comprovasse usar sistema certificado com contraprova entregue ao empregado. O TST reformou essa decisão: por unanimidade, a 1ª Turma entendeu que a ausência de assinatura não invalida, por si só, o cartão de ponto como prova, nem inverte o ônus da prova — não há, no art. 74, §2º da CLT, exigência de certificação do sistema como condição de validade. É a mesma linha do caso MetrôRio, tratado adiante.

Traduzido para o regime atual: assinatura do colaborador e certificação do sistema não são, isoladamente, o que decide a validade do controle. O que a jurisprudência do TST cobra é outra coisa — cartões com variação real de horário (Súmula 338, III) e apresentação completa dos controles quando exigidos (Súmula 338, I). É nesses dois pontos, não na assinatura, que a maioria dos sistemas vendidos ao varejo falha.

Por que o varejo alimentar concentra esse risco mais que outros setores

Levantamento da consultoria Future Tank, vinculada à Asserj, aponta rotatividade de 58,2% no varejo alimentar (ano-base 2023), com variação regional acentuada — ES 70,1%, MG 68,1%, SP 52,8%, RJ 37,9%. Não é estatística oficial do CAGED ou da ABRAS, mas é o número disponível para o setor, e a ordem de grandeza é relevante: um supermercado que gira quase 60% do quadro por ano renova, todo ano, o próprio estoque de pessoas legitimadas a entrar com reclamatória — dentro do prazo prescricional de dois anos após o desligamento e cinco anos sobre as parcelas (art. 7º, XXIX da Constituição Federal).

Na Justiça do Trabalho, horas extras foi o assunto mais julgado pelo TST em 2024: 70.508 processos, alta de 19,7% sobre 2023, segundo o próprio tribunal. É o tema que mais chega até a última instância — o que indica que é o que menos se resolve por acordo e mais depende de prova documental para decidir quem ganha.

Os sinais de que o seu ponto atual é vulnerável em juízo

Sinal no controle de jornada O que ele indica numa perícia
Horários de entrada e saída idênticos, dia após dia Padrão de ponto britânico — Súmula 338, III, inversão do ônus contra a empresa
Sistema não gera AFD e AEJ no leiaute da Portaria 671/2021 Falha de conformidade documental exigida pela própria Portaria (arts. 86 a 89)
Ajustes de horário sem registro de quem pediu, quem autorizou e o horário original Ausência de trilha de auditoria — o perito não consegue reconstruir o evento, e a dúvida favorece quem reclama
Empregador insere ou corrige marcações diretamente no sistema para contabilizar extras Vedado pelo art. 82, parágrafo único da Portaria 671/2021 — é motivo de nulidade do próprio registro
Nenhum comprovante entregue ao colaborador a cada marcação Falha de conformidade específica do REP-P (art. 83, Anexo IX da Portaria 671/2021) — não se confunde com exigência de assinatura, que o TST já afastou (casos Bompreço e MetrôRio, tratados adiante)
Sistema não guarda histórico de correções, apenas o valor final Impede provar que a jornada, ainda que ajustada, seguiu processo formal — parece "arrumado depois"

Se dois ou mais desses sinais aparecem no seu sistema hoje, o problema não é a tecnologia — é o desenho jurídico por trás dela. Reconhecimento facial, geolocalização e assinatura eletrônica são camadas técnicas. Nenhuma delas, isoladamente, resolve os pontos acima.

O que muda com um sistema desenhado a partir da perícia e da contabilidade do setor, não do RH

O Átrio Tempore nasce dentro da Átrio Gestão Contábil, contabilidade com mais de 30 anos exclusivos no varejo alimentar e mais de 500 supermercados atendidos, e foi construído por quem periciou o outro lado — jornadas de trabalho contestadas em processos reais, como perito judicial e administrador judicial. Isso não torna o Tempore o único sistema disponível para supermercado; existem outras opções no mercado, inclusive com página comercial dedicada ao setor — em geral, uma entre muitas verticais listadas em menu, com o mesmo conteúdo genérico repetido e a palavra do setor trocada. A diferença declarada não é a existência de uma vertical para supermercado — é a origem: o sistema é desenhado por quem faz a contabilidade do setor e entende como o registro sobrevive à instrução processual, não apenas para facilitar a rotina do RH. Isso significa preservar o horário original de cada ajuste, gerar comprovante individual a cada marcação, manter a trilha de auditoria completa e exportável, e produzir AFD e AEJ no leiaute vigente da Portaria 671/2021 a qualquer momento — documentação que também é a que o contador do cliente precisa para consolidar informações de folha, não apenas a que o RH usa no dia a dia.

Perguntas frequentes

Ter ponto eletrônico já protege meu supermercado numa reclamatória? Não automaticamente. A Súmula 338, I transfere ao empregador o ônus de provar a jornada por meio do controle. Se o controle for uniforme demais ou incompleto, a presunção passa a favorecer o ex-funcionário (Súmula 338, III).

Reconhecimento facial no ponto já resolve o problema jurídico? Resolve fraude de "bater ponto pelo colega", não o problema da Súmula 338. Não há precedente localizado do TST especificamente sobre validade probatória de ponto por reconhecimento facial — o amparo dessa modalidade hoje é normativo (Portaria 671, REP-P), não jurisprudencial.

Meu sistema atual não apresenta variação nenhuma nos horários. Isso é bom sinal? É o oposto. A Súmula 338, III trata justamente de cartões com horários uniformes como inválidos como prova. Variação real — porque a loja realmente varia — é o que sustenta a credibilidade do controle.

Um supermercado de 150 colaboradores precisa de um sistema diferente de um de 20? Precisa de um sistema que sustente auditoria em qualquer escala, mas o volume de marcações e de possíveis reclamatórias cresce com o headcount. Com rotatividade média de 58,2% no setor (Future Tank/Asserj), uma loja de 150 colaboradores movimenta um número de ex-funcionários muito maior do que o quadro atual sugere.

Trocar de fornecedor de ponto no meio do ano tem risco? O risco maior costuma ser o inverso: manter um sistema que não sustenta prova enquanto o passivo se acumula. A migração em si é operacional; o que precisa de atenção é preservar o histórico de marcações do sistema anterior durante a transição.


Para entender como a Portaria 671/2021 e o valor de prova em juízo se conectam na prática, veja Súmula 338 e o controle de jornada e a página dedicada a supermercados. Para falar diretamente com quem desenhou o sistema a partir da perícia judicial, fale com um especialista Átrio Tempore.

Diagnóstico de risco não é o mesmo que garantia de resultado processual — nenhum sistema de ponto, por si só, decide uma ação trabalhista. O que ele determina é se a empresa chega à audiência com prova documental sólida ou com um controle que o próprio advogado da outra parte vai usar contra ela. Se você quer saber, especificamente, onde o ponto do seu supermercado está exposto hoje, converse com a equipe do Átrio Tempore.

Seu ponto atual defende você em juízo?

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